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Como ler o relatório de reservas de um dólar digital: o que ele confirma e o que não

Um relatório de reservas compara os tokens em circulação com os ativos que os lastreiam em uma data. O que diz o da USDC de agosto de 2026, o que o contador assina, o que a Tether publica e o que fica de fora.

A resposta curta

Um relatório de reservas compara dois números em uma data: quantos tokens estão em circulação e quanto valem os ativos que os lastreiam. Se um contador independente o examinou, o que ele confirma é que essa comparação está certa naquele dia.

Ele não diz o que aconteceu antes nem o que vai acontecer depois. Também não diz se você pode trocar os seus tokens por dólares, nem cobre o aplicativo em que o seu saldo está.

Os dois números que é preciso encontrar

O primeiro é a circulação: os tokens que existem e estão nas mãos de alguém. O segundo são as reservas: os ativos que o emissor mantém para lastreá-los.

Veja o relatório da USDC de agosto de 2026. Em 31 de agosto havia 73.320,8 milhões de USDC em circulação, e as reservas valiam 73.398,5 milhões de dólares. A diferença a favor era de 77,8 milhões, cerca de 0,11% da circulação.

A margem é estreita, e o produto foi pensado assim: um token, um dólar de lastro. O que importa olhar em seguida é onde esses dólares estão aplicados.

Onde estavam as reservas

A tabela soma as linhas do relatório. Os percentuais são contas nossas sobre esses valores.

Há outro corte, por lugar. Cerca de 62.317 milhões, 84,9%, estavam no Circle Reserve Fund, que o relatório descreve como um fundo do mercado monetário de títulos públicos, pertencente a uma subsidiária da Circle. Os outros 11.081 milhões estavam fora do fundo, em contas separadas das demais contas da empresa, a maior parte em dinheiro.

Todos os títulos listados venciam antes de meados de novembro de 2026. A linha que merece atenção é o dinheiro em bancos: foi ela que falhou em março de 2023, como conta a página sobre a paridade.

Reservas da USDC em 31 de agosto de 2026, segundo o relatório de exame publicado pela Circle

Operações compromissadas de um dia com títulos do Tesouro em garantia

Milhões de dólares
49.584,0
Parte do total
67,6%

Títulos do Tesouro dos Estados Unidos

Milhões de dólares
13.219,4
Parte do total
18,0%

Dinheiro, dentro e fora do fundo

Milhões de dólares
10.594,5
Parte do total
14,4%

Ajustes por operações em trânsito

Milhões de dólares
0,6
Parte do total
0,0%

Total

Milhões de dólares
73.398,5
Parte do total
100%

O que o contador assina

O relatório traz uma opinião de contadores independentes. Eles não opinam sobre a empresa inteira. Opinam sobre uma afirmação da administração: a de que o valor dos ativos da reserva é igual ou maior do que as USDC em circulação.

A opinião vale para dois momentos: 11 e 31 de agosto de 2026, às 23h59, no horário universal. Diz que o exame seguiu as normas de asseguração do instituto americano de contadores públicos, que pedem obter segurança razoável de que essa afirmação está correta em todos os aspectos relevantes.

A página da Circle apresenta assim: ela divulga as reservas toda semana, e uma das quatro grandes firmas de contabilidade dá todo mês uma verificação de que as reservas superam os tokens em circulação.

Um detalhe de calendário: a administração assinou a declaração em 29 de setembro. O relatório de agosto descreve uma foto que já tinha um mês quando foi publicada.

O que o relatório não diz

Ler bem inclui saber onde ele termina.

  • O que aconteceu entre uma data e a outra. São duas fotos por mês, não um filme.
  • Se você pode resgatar. Quem pode trocar tokens por dólares com o emissor está definido nos termos dele, como explica a página sobre a paridade.
  • Nada sobre o seu aplicativo. O relatório fala do emissor do token, não da empresa que mostra o seu saldo.
  • Que o lastro seja um seguro. Nenhum fundo garantidor cobre esse saldo.
  • Quanto vale um token congelado. O relatório subtrai da circulação os tokens com acesso negado para cumprir uma lei ou uma ordem de autoridade: 129,9 milhões de USDC no fim de agosto.

O mesmo exercício com a USDT

A página de transparência da Tether diz que os tokens têm lastro de 100% nas reservas e que os ativos do emissor superam os passivos. A circulação é divulgada, em geral, todo dia.

O exame externo é trimestral. Em um comunicado de 31 de julho de 2026, a Tether informou ter publicado a atestação do segundo trimestre, preparada pela firma BDO. Segundo a declaração da administração que ele cita, em 30 de junho os ativos somavam 187.751,4 milhões de dólares e os passivos, 183.641,9 milhões, quase todos por tokens emitidos. O excedente era de 4.109,5 milhões, cerca de 2,24% dos passivos.

A composição é diferente. O comunicado diz que a maior parte das reservas está em instrumentos com garantia do governo dos Estados Unidos e em linhas de liquidez de curto prazo, e menciona também ouro, bitcoin e empréstimos com garantia.

Não conseguimos ler o relatório da BDO, então só repetimos o que a Tether diz sobre ele. Um excedente maior não prova mais segurança, nem um menor prova menos: depende de que ativos estão por trás e de quanto o preço deles pode se mexer.

O que a lei GENIUS exige

Os Estados Unidos aprovaram em julho de 2025 uma lei para os emissores de stablecoins de pagamento. A seção 4 transforma várias dessas práticas em obrigação.

As reservas devem cobrir os tokens pelo menos na proporção de um para um, e só com ativos de uma lista: dinheiro, depósitos à vista, títulos do Tesouro com prazo de até 93 dias, operações compromissadas de um dia e fundos do mercado monetário de títulos públicos, entre outros.

O emissor deve publicar todo mês no site a composição das reservas: quantos tokens estão em circulação, o valor e o tipo dos ativos, o prazo médio e onde estão custodiados. Uma firma de contabilidade registrada deve examinar todo mês o relatório do mês anterior, e o diretor-presidente e o diretor financeiro devem certificar que ele é exato. Certificar sabendo que é falso tem sanção penal.

Para os emissores com mais de 50 bilhões de dólares em circulação que ainda não reportam à SEC, a lei acrescenta demonstrações financeiras anuais auditadas.

A lei fixa a própria entrada em vigor: 18 meses depois da sanção, ou 120 dias depois de os reguladores emitirem as regras finais, o que ocorrer primeiro. A primeira data é 18 de janeiro de 2027. Não verificamos se as regras finais já foram emitidas.

Cinco coisas para olhar em qualquer relatório

Servem para qualquer token.

  • A data do corte e a data em que foi publicado.
  • Quem assina, e se é uma auditoria da empresa ou o exame de uma afirmação específica.
  • Se compara as reservas com os tokens em circulação, ou só lista ativos.
  • Onde estão as reservas, com que prazo, e quanto é dinheiro em bancos.
  • As notas de rodapé: o que é subtraído da circulação e o que fica de fora.

O que esta página não faz

Lemos a página da Circle, o relatório de agosto de 2026, a página da Tether e o comunicado do segundo trimestre em 13 de outubro de 2026. Não verificamos nenhuma reserva nem lemos o relatório da BDO. Os números são os daquelas datas e já mudaram.

O guia da Lex resume o alcance de tudo isso: as informações publicadas são um bom motivo para preferir uma stablecoin bem documentada a uma desconhecida, mas continuam sendo afirmações do emissor e dos auditores.

Esta página não ordena os tokens por segurança nem recomenda nenhum. A comparação entre USDT e USDC reúne as outras diferenças, a de congelamento explica os tokens com acesso negado e a do FGC explica por que nenhum fundo garantidor cobre esse saldo.